O primeiro dia de debates sobre temas amazônicos promovido pelo Fórum Amazônia Sustentável fez uma revisão das potencialidades e desafios da América Latina para avançar rumo ao desenvolvimento sustentável e colocou em perspectiva a Amazônia transfronteira.

Se considerados os ativos de que dispõe, a América Latina, é imbatível: possui um terço da água doce disponível no mundo, um terço das terras cultiváveis do planeta; produz 26% de todo o biocombustível produzido no mundo e 48% da soja, fora as gigantescas reservas de minérios como litium,  prata, bauxita e outros, além de abrigar os maiores bosques tropicais do planeta onde se encontra uma megabiodiversidade. Não é pouco.

No entanto, como lembrou Alícia Bárcena, representante da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL), no painel promovido pela Fundación Avina, a América Latina continua sendo uma exportadora de commodities sem valor agregado, tem 150 milhões de habitantes na linha da pobreza e enfrenta sérios problemas de perda de recursos naturais devido às formas predatórias de exploração e uso indevido da terra.

Então como chegar a uma economia verde e fazer a transição para fora atual padrão de produção em consumo? Alguns apontamentos apareceram entre as várias apresentações do dia. E eles oscilam entre a esperança e a descrença.

Otimista em relação ao que se produzirá ao longo da Rio+20 com reflexos na região, o secretário-geral  de Coordenação de Políticas e Agências de Negócios da ONU, o economista Thomas Stelzer – que participou como convidado especial em uma das sessões – acredita que, sobretudo  a sociedade civil e o setor empresarial dos países que participam da Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável da ONU estão desenhando um caminho que poderá levar as nações em desenvolvimento a um patamar de melhores condições socioambientais. “A Rio+20 é uma janela que nos levará a um futuro melhor”, disse Stelzer.

O CEO da Fundación Avina, Sean McKaughan  também mostrou-se positivo sobre as tendências da América Latina. Para ele, a região tem uma oportunidade única para assumir a liderança no cenário global e gerar modelos de sustentabilidade que sirvam às demais regiões do globo.

Segundo McKaughan,  a região goza de plenas condições de conciliar desenvolvimento humano, mudanças climáticas e os limites planetários, gerando um modelo de desenvolvimento sustentável capaz de reorganizar seu sistema de produção e consumo e ser uma referência global, justamente em função das potencialidades de que dispõe.

O contraponto às análises mais otimistas durante o primeiro dia de debates veio das apresentações organizadas pela Articulação Regional da Amazônia (ARA). O painel organizado pela entidade fez um zoom sobre a região amazônica, que engloba nove dos países latino-americanos: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana Inglesa, Peru, Suriname e Venezuela.

Com base em um estudo lançado no final do ano passado durante o V Encontro do Fórum Amazônia Sustentável em Belém os representantes da entidade fizeram um recorte por país para mostrar que os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) para a Amazônia, derivados dos ODM lançados em 2000 pela ONU e que deveriam estar cumpridos até o ano de 2015 estão muito longe de atingirem a meta desejada.

Conforme os dados interpretados pelos especialistas da ARA, apesar de alguns avanços nas últimas décadas, ainda são drásticas as condições sociais, econômicas e ambientais nos países que fazem parte da Amazônia. “Faltam muitos dados porque os governos simplesmente não têm capacidade de gerar informações sobre a Amazônia mais profundamente”, considerou Fernando Reyes, da ARA-Bolívia.

Mas de acordo com o estudo, é possível afirmar que cerca da metade da população que vive nesses países encontra-se abaixo da linha da pobreza, apesar dos vastos recursos naturais citados por outros palestrantes. A situação é mais crítica no na Bolívia (60%), Equador (59%),  Peru e Guiana Inglesa (54%), Venezuela (52%) e Suriname (51%).

O estudo concluiu ainda que as taxas de desemprego na região diminuíram. Mas essa realidade esconde graves problemas como a informalidade, o trabalho infantil e o trabalho forçado. Durante a última década, somente na Amazônia brasileira, mais de 15 mil pessoas foram libertadas de condições análogas à escravidão. Geralmente são homens analfabetos entre 25 e 40 anos, recrutados para extração ilegal de madeira, a produção de carvão e a pecuária.

Para Janet Ulba, representante da ARA na Colômbia, as metas ainda são uma miragem na paisagem regional. “Não vamos conseguir cumprir”.

 

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