By Published On: outubro 2nd, 2026Categories: NOTÍCIAS4 min read

Em meio à reconfiguração da política internacional e às reflexões que este momento tem provocado em diferentes âmbitos, nós, que fazemos parte do setor filantrópico, temos dialogado sobre o papel que nos cabe diante do impasse que atravessa o atual modelo democrático.

Os desafios atuais do setor incluem a redução dos espaços de participação cívica, as restrições à mobilização de recursos, a urgência de renovar o multilateralismo e as mudanças nas estratégias das fundações. Embora já exista consenso sobre o diagnóstico, há um elemento sobre o qual ainda não se falou o suficiente e que é urgente abordar: o risco percebido no setor ao financiar estratégias que sejam pró-democracia, e não apenas que contribuam para a agenda democrática.

Foi sobre isso que Pedro Bocca, coordenador de Assuntos Internacionais e Políticas Públicas do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), no Brasil, falou recentemente no fórum “Conectando estratégias filantrópicas nas Américas: da América Latina rumo a uma agenda compartilhada para o espaço cívico e a resiliência democrática”, promovido pela Fundación Avina, Hispanics in Philanthropy e Open Society Foundations por ocasião da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas deste ano. Por um lado, o financiamento em silos incide, de alguma forma, sobre a democracia, mas esses recursos se atomizam na ausência de uma estratégia compartilhada. A situação é diferente quando existe uma intencionalidade direcionada ao fortalecimento do ecossistema filantrópico, apoiando os atores sociais que estão na linha de frente, abrindo diálogos, fomentando o debate e sustentando conversas que podem tensionar e ajustar relações no contexto atual.

Apostar no financiamento do ecossistema democrático, compreendido a partir de sua diversidade de atores, tem como objetivo concreto fortalecer a base democrática e, ao mesmo tempo, criar condições sociais, políticas e culturais para a construção de um projeto de sociedade. É construir o piso mínimo que permita o florescimento de respostas ao momento atual.

Ainda são poucos os financiadores que têm clareza sobre a importância de apoiar o ecossistema democrático. Um dos argumentos que explicam essa situação é que defender a democracia é interpretado como uma posição política e costuma ser associado ao campo progressista. No entanto, a distinção fundamental não é entre esquerda e direita, mas entre o democrático e o antidemocrático, entre o autoritário e o não autoritário. Essa mudança de eixo transforma a conversa: o contexto atual exige análises mais profundas, que superem a equação polarizante e não deixem de lado os mínimos necessários para a construção conjunta.

Há mais de 30 anos, a região vive uma fragmentação de sua identidade. Ao compartilhar problemas comuns, foi construindo respostas ao longo do caminho: às vezes mais integradas e, em outras, completamente individualizadas. Isso representa uma oportunidade perdida: a partir dos vínculos sociais e culturais construídos, a América Latina e o Caribe, como conjunto de países que compartilham território e recursos, poderiam se posicionar de outra maneira, responder aos desafios atuais com outras estratégias e fortalecer uma visão latino-americana. A percepção é de que, embora a América Latina e o Caribe compartilhem muitos elementos, a região não se caracteriza por uma resposta conjunta que contribua para melhorar e criar condições democráticas que conduzam ao bem viver e a uma prosperidade compartilhada.

O momento exige orientações estratégicas comuns. Isso pressupõe abrir espaços que ampliem a conversa e integrem novos atores, enriquecendo o intercâmbio sobre onde estamos e para onde apontam esses esforços conjuntos. Desse exercício podem surgir inovações que impulsionem as mudanças urgentes que a região demanda, respondendo a uma pergunta-chave: de que maneira a filantropia pode ajudar a reduzir as condições que alimentam a polarização e ativar aquelas que possibilitam a democracia?

Como região, devemos organizar as conversas entre diferentes setores sociais e atores dentro da filantropia, para que isso contribua para orientar uma identidade filantrópica regional. Devemos desmistificar os riscos de financiar a democracia, em favor da construção de ecossistemas filantrópicos duradouros e, finalmente, olhar para a América Latina e o Caribe como uma região relevante no contexto global. Este é um momento para voltar às raízes do papel da filantropia na democracia e dos recursos destinados pelas nossas fundações a esse propósito. Se perdermos a democracia, que lugar restaria para a filantropia?

Anaid Alcázar

Programa Democracias

Fundación Avina

Artigos recentes