By Published On: setembro 18th, 2026Categories: Artigos, NOTÍCIAS8,9 min read

Uma reflexão a partir da iniciativa Impulsouth, que nos deixa lições e abre novas perguntas para o Sul Global 

Em outubro, ministros, empresas, organismos internacionais, academia e outros atores do setor se reunirão em Santo Domingo para a XI Semana da Energia da América Latina e do Caribe. A agenda reflete a magnitude das decisões e dos desafios que a região enfrenta: segurança energética, financiamento, integração, novas tecnologias, planejamento, capacidades, gênero e pobreza energética, entre outros temas. 

Em meio a essas discussões há uma pergunta que parece simples, mas não é: o que faz com que uma transição energética seja justa? A resposta parece ir muito além das tecnologias que escolhemos. 

Falar de uma transição energética justa pode sugerir uma agenda compartilhada capaz de transformar os sistemas energéticos sem reproduzir ou aprofundar desigualdades. Mas essa formulação comum pode ocultar uma realidade muito mais diversa. E é que, quando a transição chega a contextos locais, o problema que precisa ser resolvido (aquilo que precisa ser justo) muda consideravelmente de um território para outro. 

Quando o acesso não basta 

A Amazônia equatoriana oferece um bom exemplo. Na comunidade Achuar de Wayusentza, em Pastaza, algumas tecnologias como lâmpadas e painéis solares já fazem parte da paisagem. No entanto, o acesso continua limitado e desigual: poucas famílias possuem kits solares, os dispositivos tecnológicos são escassos e o acesso à internet é limitado e majoritariamente controlado por homens. Essas condições afetam especialmente as possibilidades das mulheres de acessar informação, educação e atividades produtivas. 

A iniciativa desenvolvida pela ONG ASOCLIMA trabalhou na região com mulheres no uso e manutenção de sistemas solares, ferramentas digitais e liderança comunitária, combinando aprendizado prático com adaptações ao isolamento geográfico, às limitações de conectividade e às características culturais da comunidade. A experiência deixa uma pergunta importante: o que acontece quando o acesso chega, mas as desigualdades permanecem? 

Uma tecnologia renovável pode chegar a um território e representar um avanço, mas sua chegada não garante que todas as pessoas tenham as mesmas capacidades para utilizá-la, decidir sobre ela ou se beneficiar das mudanças que ela produz. A transição pode resolver uma lacuna e, ao mesmo tempo, tornar visíveis outras. 

O que é preciso para desenhar "justiça"? 

Mas a justiça não se decide apenas no acesso ou uso de uma tecnologia. Também importa quem participa do seu desenho. No Equador, o WasiLab de la Pontificia Universidad Católica del Ecuador (PUCE), partiu de lacunas identificadas pela própria universidade por meio de um diagnóstico com mais de 1.100 atores vinculados à implementação do Plano Nacional de Mitigação da Mudança Climática (PLANMICC 2025–2070). Uma delas era a capacidade de transformar prioridades e ideias em projetos suficientemente estruturados para avançar rumo a potenciais fontes de financiamento. 

A partir desse diagnóstico, foi desenhado um processo de formação e acompanhamento que produziu notas de conceito, pitches e outras ferramentas de formulação, mas também permitiu ir além da formulação técnica: os participantes revisaram premissas e incorporaram dimensões sociais, culturais e de gênero na elaboração de seus projetos. 

Isso abre outra dimensão da justiça. Não se trata apenas de perguntar quem recebe os benefícios da transição. Também importa quem participa das decisões e quais perspectivas e realidades conseguem ser incorporadas naquilo que se desenha. 

Um projeto energético pode ser tecnicamente sólido e financeiramente atrativo e, ainda assim, não reconhecer como seus benefícios, custos ou oportunidades podem se distribuir de maneira desigual. Construir uma transição justa exige, então, capacidades técnicas, mas também a capacidade de reconhecer as dimensões sociais, territoriais e de gênero daquilo que está sendo desenhado. 

Essa preocupação está muito próxima das conversas que a região terá em Santo Domingo. A própria agenda da Semana da Energia reconhece que planejar a transição exige capacidades institucionais, coordenação de investimentos e articulação entre atores, enquanto outros espaços serão dedicados especificamente ao desenvolvimento de capacidades, gênero e transição justa. 

Conhecer para decidir 

Se continuarmos aproximando o foco, surge uma dimensão muito mais cotidiana: a capacidade de compreender e tomar decisões sobre a energia que utilizamos. Em Cochabamba, na Bolívia, uma iniciativa do Centro Boliviano de Energías Renovables (CBER) trabalhou com mulheres em eletricidade doméstica, eficiência energética e conhecimentos básicos sobre sistemas fotovoltaicos. Seu ponto de partida era uma desigualdade aparentemente cotidiana: muitas mulheres haviam passado pela escola, pelos espaços profissionais e, por fim, pelo lar, com muito menos acesso do que os homens a conhecimentos e tarefas historicamente consideradas masculinas. 

Após a formação, as participantes relataram maior segurança para utilizar ferramentas, identificar riscos, realizar reparos ou substituições básicas e compreender melhor a eficiência energética a partir de seu consumo cotidiano. 

À primeira vista, aprender a usar uma ferramenta ou entender o consumo elétrico de uma residência pode parecer pequeno diante das grandes decisões sobre matrizes energéticas, infraestrutura ou investimento. Mas isso levanta uma pergunta fundamental: se as tecnologias, fontes e formas de consumir energia estão mudando, quem tem os conhecimentos necessários para entender o que essa mudança significa dentro da própria casa? 

Compreender a energia amplia a capacidade de avaliar opções, fazer perguntas, reconhecer riscos e tomar decisões. No entanto, ter capacidade para decidir não significa necessariamente ter poder para fazê-lo: a renda, os preços, as relações dentro do lar e as opções disponíveis no mercado também condicionam essa escolha. Por isso, a justiça da transição energética também pode se jogar dentro de uma casa.

 Conectar para sustentar a mudança 

Existe ainda outra peça. Saber utilizar uma tecnologia, formular um projeto ou desenvolver uma habilidade não garante, por si só, que essa capacidade possa se transformar em ação e ser colocada em prática. 

Experiências em diferentes países mostram a importância das conexões. Grupos comunitários de poupança liderados por mulheres podem ajudar a enfrentar o custo inicial de acesso a novas tecnologias. Autoridades comunitárias podem trazer legitimidade e facilitar processos em um território. Empresas e profissionais podem conectar formação com mentoria e oportunidades de trabalho. Universidades e institutos de ensino podem vincular a formulação de projetos a conhecimento especializado e potenciais fontes de financiamento. 

Em Camarões, uma iniciativa liderada pela Women for a Sustainable Energy and Climate Action (W4SECA) mostra isso sob outra perspectiva. Vinte e cinco mulheres, entre elas empreendedoras, agricultoras, professoras, estudantes, mulheres com deficiência e mulheres deslocadas internamente pelo conflito nas regiões anglófonas, participaram de uma formação sobre energias renováveis e empreendedorismo. Para viabilizá-la, articularam-se o município, profissionais de eletrificação off-grid, um hub de inovação e especialistas do setor energético; além disso, o trabalho foi feito em francês e inglês, houve tradução espontânea para línguas locais e foram criadas condições para que mães pudessem participar com seus bebês. 

A transição energética justa não depende apenas das tecnologias que escolhemos ou de quem recebe seus benefícios. Acesso, desenho, capacidades, poder de decisão e conexões são também dimensões de uma mesma pergunta pela justiça. Mas essas capacidades não operam de forma isolada: precisam se conectar com instituições, recursos, conhecimento, financiamento e outros atores capazes de transformá-las em ação. 

Perguntas para acompanhar a transição 

Isso leva a duas perguntas que podem acompanhar as grandes discussões energéticas da região: Quem tem capacidade para construir a transição como uma transição justa? E com quem precisa se conectar para conseguir fazê-lo? 

As experiências mostram que não existe uma única resposta. Em alguns contextos, a primeira questão de justiça ainda é bem mais básica: acessar energia onde ela não está disponível ou está disponível de maneira insuficiente. Em outros, o acesso pode existir e, ainda assim, persistirem desigualdades na capacidade de utilizar a tecnologia, participar das decisões ou aproveitar as oportunidades que ela gera. A diversidade, então, não está apenas nas soluções. Está também naquilo que precisa ser justo em cada contexto e no lugar onde essa desigualdade aparece. 

Por isso, a pergunta pela justiça não deveria aparecer apenas no final, quando uma tecnologia já foi escolhida, um investimento aprovado ou um projeto desenhado. Ela deveria acompanhar o processo de transição desde o início e enquanto ele ocorre, e nos ajudar a observar quem pode participar de sua construção, quem pode tomar decisões e quais desigualdades poderiam se reproduzir pelo caminho. 

À medida que a América Latina e o Caribe discutem como financiar, planejar e acelerar seu futuro energético, essa perspectiva pode ajudar a ampliar a conversa: não apenas qual transição queremos, mas o que precisamos observar para construí-la como uma transição justa.  

As experiências que alimentam esta reflexão vêm de 19 Learning & Innovation Grants implementados no âmbito da Impulsouth, uma iniciativa da Fundación Avina e da Universidade das Nações Unidas (UNU), apoiada pelo International Development Research Centre (IDRC). Os projetos se desenvolveram em contextos muito distintos da África e da América Latina e abordaram desde formação técnica e empreendedorismo até desenvolvimento de projetos, pesquisa e gestão comunitária da energia. 

Várias delas fazem parte também de um guia de storytelling sobre transição energética justa no Sul Global, que reúne 13 histórias da África e da América Latina, e propõe ferramentas para contar esses processos a partir de suas dimensões mais humanas. Porque por trás de uma conversa que pode parecer técnica ou distante, a justiça também se joga em espaços muito mais próximos: em uma comunidade, em uma oportunidade de trabalho ou até mesmo dentro de uma casa. 

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