
Novos modelos de economia circular, regenerativa e inclusiva
Brasil: Um modelo inovador de economia circular, regenerativa e inclusiva está sendo implantado na Amazônia Legal.
Boa Vista é uma cidade que compõe a Amazônia Legal, região que abrange 56% do território do Brasil. O conceito de Amazônia Legal surge da identificação de uma série de características ambientais, identidades culturais e problemas políticos e socioeconômicos comuns a uma região cujo desenvolvimento, por suas semelhanças, requer um planejamento intersetorial. Uma das principais atividades econômicas de Boa Vista é a produção intensiva de alimentos. Uma atividade que, com regulamentações locais sobre manejo orgânico e promoção da agricultura familiar e da agroecologia sem implementação, gera condições desfavoráveis para famílias produtoras, comunidades indígenas e migrantes que também trabalham na agricultura de pequena escala.
Nesse contexto, uma parceria de organizações da sociedade civil denominada "Boa Vista Acolhedora" implementou um modelo inovador de economia circular que atua na cadeia de valor de alimentos, desde a sua produção até à valoração dos resíduos gerados em uma perspectiva de inclusão social.
Essa abordagem sistêmica permite gerenciar resíduos orgânicos de origem domiciliar e restos de podas para convertê-los em insumos (compostagem orgânica) necessários à cadeia de produção agroecológica e regenerativa em um território afetado por problemas de fertilidade do solo. Essa parceria, formada pela Associação Voluntários para o Serviço Internacional (AVSI), a Escola Agrícola Rainha dos Apóstolos (EARA) e a Fundación Avina, apoiada pela União Europeia, permitiu o desenvolvimento de uma central de compostagem que serve de instrumento para implementar a política pública de gestão de resíduos orgânicos. A central tem capacidade de tratamento de mil toneladas por mês e presta um serviço público essencial ao recuperar diversos tipos de materiais orgânicos, como restos de podas e alimentos, para transformá-los em fertilizantes de alta qualidade. Além disso, como parte de sua estratégia de inclusão social, emprega migrantes da Venezuela visando à sua integração econômica e cultural.
Só no primeiro semestre de 2024, o estabelecimento processou mais de 500 toneladas de resíduos, e o fertilizante produzido foi distribuído pelo município entre mais de 600 famílias de agricultores que participam do Plano Municipal de Desenvolvimento do Agronegócio, programa criado para incentivar a agricultura familiar. O fertilizante produzido melhora a qualidade do solo, fornecendo nutrientes e reduzindo sua acidez. Assim, o círculo se fecha e os resíduos retornam à terra para produzir alimentos de qualidade, utilizando práticas agroecológicas e regenerativas, contribuindo para a segurança alimentar da região.
Os parceiros da Boa Vista Acolhedora, juntamente com o município e o Banco do Brasil, facilitaram a inovação na instalação e operação da tecnologia de compostagem, que permite transformar resíduos orgânicos em recursos valiosos, promovendo práticas sustentáveis.
Além disso, a Fundación Avina articulou o capital social gerado pela colaboração entre os setores público e privado por meio da criação da Rede de Economia Circular e Agroecologia de Boa Vista (RECA-BV) para fortalecer as atividades ligadas à circularidade da cadeia de valor de alimentos, influenciar as políticas públicas e criar um modelo de gestão inclusivo e de participação cidadã.
Por fim, a promoção de agendas e visões compartilhadas (em torno da economia circular e da agroecolo- gia) estabeleceu medidas locais que refletem um compromisso com a sustentabilidade ambiental e a responsabilidade social.
Esses esforços coletivos contribuíram para a criação de uma cidade mais resiliente, inclusiva e ambientalmente consciente, e esse modelo amplia a cultura local a partir da diversidade, em um processo colaborativo de longo alcance que abrange famílias de agricultores, migrantes e empresas locais.


