By Published On: setembro 9th, 2026Categories: NOTÍCIAS4,3 min read

Na terça-feira, 25 de agosto, nossa CEO, Valeria Scorza, participou do Generosidade Sem Fronteiras, um dos principais encontros sobre cultura da doação na América Latina e no Caribe, organizado pelo GivingTuesday. O evento virtual reuniu organizações da sociedade civil, fundações, universidades, empresas e lideranças que atuam na promoção da generosidade e do impacto social na região. 

Valeria participou da plenária de encerramento, intitulada “Abundância em vez de escassez, o futuro da filantropia”, ao lado de Asha Curran, CEO do GivingTuesday. A conversa partiu de um diagnóstico compartilhado, de que o setor social atravessa um momento de restrição de recursos e pressão sobre o espaço cívico, mas a resposta a esse cenário não precisa estar baseada apenas na narrativa de escassez. 

“Estamos vivendo um momento de escassez, e isso é real. Os recursos estão diminuindo e o espaço cívico está sob pressão. Organizações e comunidades estão sendo chamadas a responder a um cenário cada vez mais incerto, com menos recursos. Essa é a nossa realidade, e não devemos minimizá-la. Mas também precisamos ter cuidado, pois não podemos permitir que a escassez se torne a única história que contamos sobre nós mesmos e sobre o futuro que queremos construir”, pontuou Scorza. 

Para Valeria, a América Latina é também uma região de extraordinária abundância, de conhecimento, criatividade, solidariedade, relações de confiança e capacidade de organização comunitária. Um exemplo dessa capacidade de construir a partir da conexão é o MapBiomas, rede colaborativa que combina tecnologia de satélite, conhecimento científico e conhecimento local para produzir dados e mapas ambientais abertos. O que começou com um grupo de organizações reunindo ciência, tecnologia, conhecimento local e relações de confiança cresceu e se transformou em uma rede colaborativa com mais de 250 organizações e mais de 75 cientistas, em 17 países do Sul Global. Juntos, produzem uma inteligência ambiental compartilhada que contribui para proteger florestas, gerir recursos naturais e apoiar melhores decisões, gerando informações que nenhuma das organizações conseguiria produzir sozinha. Fundação Avina apoiou a articulação inicial da rede e hoje trabalha em parceria para expandir o projeto a diversos países do Sul Global. 

“Para mim, isso é abundância. Não se trata de abundância porque uma instituição tem tudo de que precisa, mas porque, quando conectamos aquilo que temos, novas possibilidades podem surgir. É por isso que a imaginação importa. Em tempos difíceis, a imaginação não é um luxo, ela faz parte da maneira como construímos o futuro”, afirmou. 

MapBiomas é uma rede multi-institucional que produz mapeamentos anuais de cobertura e uso da terra

Filantropia, democracia e o poder das redes 

A conversa também abordou a relação entre filantropia, participação e democracia. Para Valeria, a maneira como os recursos são distribuídos influencia quem participa, quem tem voz, quais conhecimentos são valorizados e quem estabelece prioridades e toma decisões. “As arquiteturas de financiamento também moldam as relações de poder, e é nesse ponto que a generosidade se conecta profundamente com a democracia”, afirmou. 

Nesse contexto, Scorza defendeu a necessidade de ir além de uma visão de resiliência baseada apenas na sobrevivência das organizações e pensar em um espaço cívico com vitalidade, capaz de imaginar, se organizar e moldar o futuro. “A vitalidade não surge simplesmente tornando cada organização individualmente mais forte, ela surge do fortalecimento do tecido que nos conecta”, destacou. 

O trabalho recente que a Avina realizou com a RACI oferece, segundo Valeria, uma evidência dessa dinâmica. Em um estudo realizado com 73 espaços coletivos da sociedade civil em 34 países, dois terços relataram ter enfrentado cortes orçamentários. Ainda assim, uma das respostas mais frequentes não foi o isolamento, mas a busca por alianças, redes e espaços coletivos mais fortes, criando condições para que organizações se reinventem, repensem suas formas de atuação e se reorganizem. 

Para Asha Curran, essa capacidade de conexão também passa por ampliar a própria definição de generosidade. Ao longo de quase 15 anos acompanhando movimentos do GivingTuesday em diferentes partes do mundo, ela observou que a generosidade frequentemente aparece em espaços que não costumamos medir ou sequer reconhecer como doação. 

“Portanto, a abundância não diz respeito apenas a encontrar mais recursos, é também uma mudança de mentalidade. Trata-se de finalmente enxergar os recursos, as relações, a criatividade e a generosidade cotidiana que já estavam presentes o tempo todo, e então construir a infraestrutura necessária para conectá-los”, comentou. 

É justamente nesse ponto que as contribuições de Asha e Valeria se encontraram. No contexto atual de desafios simultâneos que vivemos, abundância significa reconhecer e conectar os recursos, conhecimentos, relações e capacidades que já existem.