By Published On: dezembro 10th, 2025Categories: NOTÍCIAS5,5 min read

O contexto global atual é caracterizado pela polarização sociopolítica, pela influência ativa da tecnologia em todos os aspectos de nossas sociedades e por outros fatores que fazem com que a desinformação e a pós-verdade estejam na ordem do dia. Nesses tempos, o jornalismo assume um papel fundamental para relatar a realidade, mas ao mesmo tempo é diretamente afetado pelas forças que moldam a verdade no mundo atual. 

As ameaças à liberdade de expressão, a falta de transparência e os riscos representados pela inteligência artificial, assim como as mudanças no financiamento do jornalismo independente, são desafios que não só colocam em xeque o trabalho de jornalistas, como também afetam as democracias e colocam em risco a colaboração necessária para construir um mundo mais justo e sustentável. 

Nesse contexto, a Fundación Avina impulsiona o Fundo para a Democracia e o Trabalho, em parceria com a FORGE Funders, com o objetivo de catalisar organizações que apoiem trabalhadoras e trabalhadores que lideram esforços na interseção entre direitos trabalhistas, democracia e transição justa. A Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) é uma dessas organizações, com um projeto focado no fortalecimento da segurança de jornalistas na Argentina, em tempos em que a liberdade de expressão está continuamente sob ameaça e enfrentando retrocessos. Recentemente, a FIJ participou da Trust Conference deste ano, organizada pela Thomson Reuters Foundation em Londres, onde foram discutidas preocupações compartilhadas sobre como os espaços cívicos vêm diminuindo e como as condições necessárias para o jornalismo independente também vêm se deteriorando. 

Aqui compartilhamos alguns dos aprendizados da FIJ durante a Trust Conference 2025.  

Uso de marcos legais para controlar o jornalismo 

Uma prática comum em diferentes regiões do mundo é o uso de marcos legais para intimidar jornalistas e meios independentes. Especialistas apontam como categorias penais ambíguas, leis antiterrorismo e normas sobre “agentes estrangeiros” são utilizadas para desencorajar investigações e levar jornalistas aos tribunais. Essas pressões restritivas geralmente operam de forma indireta, provocando uma cultura de autocensura preventiva entre os meios, mais do que proibições diretas e explícitas.  

Inteligência Artificial: vulnerabilidade por trás da inovação 

Outro elemento chave é a relação entre a inteligência artificial e o jornalismo. Embora essa inovação possa trazer benefícios para diversas atividades profissionais, também pode expor jornalistas a vulnerabilidades. Como podem trabalhar livremente quando suas vozes podem ser imitadas, suas fontes rastreadas e campanhas de assédio se espalharem em questão de horas? A segurança já não é apenas física: também é digital, emocional, econômica e legal. 

Existem riscos como manipulação de identidade, ataques reputacionais amplificados por plataformas digitais e vigilância ilegal de comunicações, além de problemas trabalhistas e de integridade informativa presentes nos sistemas de IA. 

Essas práticas e a falta de transparência não afetam apenas o jornalismo. Na sessão “A cadeia de suprimentos da IA: riscos trabalhistas e informativos” da Trust Conference 2025, destacou-se que os modelos de linguagem e as grandes empresas de tecnologia dependem de cadeias de trabalho precárias e invisíveis — rotulagem de dados, moderação de conteúdo e transcrição — realizadas em condições de exploração, muitas vezes no Sul Global, colocando trabalhadoras e trabalhadores em situações ocultas para as pessoas consumidoras. 

Além disso, existem preocupações sobre a falta de transparência nas fontes de dados utilizadas para treinar esses sistemas, que podem reproduzir vieses, distorcer o debate público e afetar a confiabilidade das informações consumidas pelas audiências. Parafraseando Christopher Wylie no painel “Dentro da câmara de eco da IA: expondo a distopia da Big Tech”, o problema não é a tecnologia em si, mas a política por trás do código e as dinâmicas de poder que ela reforça. 

Esses elementos ressaltam a necessidade de incorporar segurança digital, compreensão crítica das infraestruturas de IA e estratégias de mitigação na formação e ação de incidência de jornalistas, garantindo que estejam preparados para um ambiente em que as ferramentas que moldam a informação são cada vez mais automatizadas, globalizadas e difíceis de rastrear.  

Sustentabilidade financeira do jornalismo independente 

Há uma crescente preocupação com a sustentabilidade financeira dos meios independentes e os desafios decorrentes da pressão política, da instabilidade econômica e da crise global da filantropia, especialmente após a suspensão de programas financiados por agências governamentais dos EUA. Nesse contexto, a colaboração, a diversificação de fundos e os modelos de associação comunitária ganham grande relevância para a sobrevivência, sobretudo, de meios pequenos e locais ao redor do mundo.  

A colaboração é essencial 

Conversas realizadas entre jornalistas, sociedade civil, academia, doadores e defensores de direitos humanos de todo o mundo mostram um padrão global nos desafios que o setor atualmente enfrenta. Por isso, é necessário traduzir perspectivas globais em ações locais, gerar alianças, dialogar e aprender com outras experiências. É imperativo fomentar e apoiar não apenas a sobrevivência, mas também as condições e a proteção do trabalho do jornalismo independente, e para isso a colaboração multissetorial é eixo central. 

A responsabilidade de continuar promovendo o diálogo enquanto salvaguardamos as fontes reais e o trabalho de investigação jornalística é uma tarefa coletiva. São necessárias regulamentações sobre como a inteligência artificial opera, seu papel no jornalismo e que protejam a integridade das pessoas, assim como sua implementação adequada por parte das empresas envolvidas. As pessoas consumidoras de conteúdo devem ser responsáveis pelo que consumem e compartilham, e a conversa sobre essas circunstâncias deve se manter ativa para gerar consciência e desenvolver capacidades que nos permitam questionar, discernir e agir em um mundo globalizado, polarizado e com presença tecnológica cada vez mais profunda. 

Contribuindo para isso, a Agência de Notícias Inncontext da Fundación Avina, em parceria com o Centro Pulitzer, lançou recentemente o Guia para projetar relações simbióticas entre jornalismo e sociedade civil, que reúne aprendizados, ferramentas e exemplos concretos coletados a partir de uma série de diálogos com profissionais de ambos os setores. O guia oferece um decálogo para a colaboração, estratégias para medir o impacto em chave de ressonância e casos inspiradores de alianças bem-sucedidas.

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