
Como a resiliência das cidades diante das mudanças climáticas depende de territórios rurais e naturais frequentemente invisibilizados? Investir nesses territórios pode ser uma estratégia central de gestão de risco climático e urbano?
São essas indagações que nossa diretora do eixo de ação climática, Juliana Strobel, aborda nesse artigo sobre a experiência de orquestração da iniciativa Marajó Resiliente, que combina implantação de sistemas agroflorestais, acesso a mercados e a crédito para a agricultura familiar e o fortalecimento de políticas públicas municipais no maior arquipélago fluviomarinho do mundo.
Quando falamos de resiliência urbana no contexto das mudanças climáticas, é fundamental reconhecer que estamos falando, antes de tudo, de gestão de risco sistêmico. As cidades concentram pessoas, ativos, infraestrutura e mercados, mas dependem profundamente de sistemas que estão fora do seu controle direto.
Água, alimentos, estabilidade climática e biodiversidade vêm de territórios rurais e naturais, muitas vezes distantes. Isso nos leva ao ponto central de que a cidade e o urbano não são sinônimos. A cidade é um sistema territorial, profundamente dependente de espaços rurais e naturais que sustentam seus fluxos vitais. Ignorar essa interdependência é aceitar níveis de risco cada vez maiores para cidades, economias e políticas públicas.

Imagem aérea das zonas que abrangem o projeto Marajó Resiliente
Do ponto de vista climático, dois dos principais vetores de vulnerabilidade urbana hoje são a segurança alimentar e a segurança hídrica. Cadeias de alimentos são altamente expostas a eventos extremos, instabilidade logística e degradação ambiental, enquanto a disponibilidade de água nas cidades depende diretamente do manejo do solo, da conservação de ecossistemas e de arranjos de governança que ultrapassam fronteiras municipais. Muitas crises urbanas têm origem justamente nessas falhas territoriais. Por isso, investir em resiliência é, sobretudo, investir em prevenção, antes que os riscos se transformem em crises humanitárias ou econômicas.
É nesse contexto que se insere o Marajó Resiliente, um projeto financiado pelo Green Climate Fund e articulado pela Fundación Avina, que busca aumentar a resiliência climática de agricultores familiares em um dos territórios mais vulneráveis do Brasil, por meio do escalonamento de sistemas agroflorestais diversificados e do fortalecimento da governança local. A experiência do Marajó ajuda a tornar visível como territórios rurais, muitas vezes considerados periféricos, são na prática centrais para a resiliência das cidades.
Localizado na foz do rio Amazonas, no norte do Brasil, em plena região amazônica, o Marajó é um arquipélago de enorme relevância ecológica e climática, mas sem conexões terrestres com grandes centros urbanos, onde o acesso se dá majoritariamente por vias fluviais. Esse isolamento estrutural amplia vulnerabilidades sociais e econômicas no nível local e, ao mesmo tempo, evidencia uma contradição importante: embora o território contribua para a segurança alimentar de cidades como Belém, os municípios marajoaras historicamente contam com pouca estrutura de políticas públicas para lidar com os impactos das mudanças climáticas em seu próprio território.
Nesse cenário, o projeto Marajó Resiliente combina três frentes estratégicas de atuação, pensadas de forma integrada: a implantação de 800 hectares de sistemas agroflorestais diversificados, fortalecendo a resiliência climática das populações locais, a segurança alimentar e os serviços ecossistêmicos; a redução das barreiras de acesso a mercados e ao crédito do PRONAF para a agricultura familiar, ampliando a capacidade de investimento das famílias rurais; e o fortalecimento das políticas públicas em nível municipal, com foco na promoção de estratégias de adaptação climática. Tratase de uma abordagem que atua simultaneamente no território, nas finanças e na governança — elementos essenciais para reduzir vulnerabilidades de forma estrutural.
No campo das políticas públicas, o foco é apoiar os municípios para que a resiliência climática seja pensada para além dos centros urbanos, trazendo o protagonismo dos agricultores familiares para o centro das estratégias locais. Em parceria com atores locais e nacionais, a iniciativa apoia os municípios de Soure, Salvaterra e Cachoeira do Arari na construção de seus Planos Municipais de Adaptação Climática, no contexto da iniciativa AdaptaCidades, impulsionada pelo Governo Federal. Paralelamente, as organizações que articulam o projeto também trabalham para que políticas públicas já existentes sejam usadas de forma estratégica como instrumentos de adaptação e desenvolvimento local, como no fortalecimento da implementação do PAA e do PNAE nesses municípios, permitindo que produtos agroflorestais locais façam parte das compras públicas e reforcem o acesso a mercados locais e regionais. Outras iniciativas complementares, como o fortalecimento de feiras locais de alimentos, também contribuem para essa lógica de resiliência territorial.

Atividade de certificação dos multiplicadores do projeto Marajó Resiliente
Essa experiência reflete a forma como a Fundación Avina atua: trabalhando justamente no espaço onde muitas soluções se perdem, entre o território, as políticas públicas e o financiamento. Em vez de levar modelos prontos, a Avina apoia soluções lideradas localmente, conectando o conhecimento e a inovação que nascem no território — incluindo o conhecimento ancestral dos agricultores familiares — a estratégias de escala, recursos financeiros e processos decisórios. No Marajó Resiliente, as populações locais não são beneficiárias finais, mas cocriadoras das estratégias desde o início, por meio de uma governança que inclui um Comitê Consultivo Local com participação efetiva na tomada de decisão. Essa abordagem, além de ética, é estratégica: soluções concebidas a partir do território tendem a ser mais eficazes, mais duráveis e menos dependentes de aportes contínuos de recursos externos, gerando, para investidores e financiadores, impacto mais resiliente ao longo do tempo e maior eficiência no uso do capital.
No fundo, o que o Marajó Resiliente nos ensina é que investir em territórios rurais estratégicos — especialmente aqueles historicamente isolados — é também investir na resiliência das cidades, dos mercados e das instituições. Em um cenário de incerteza climática crescente, iniciativas que fortalecem segurança alimentar, hídrica e governança territorial deixam de ser apenas ações socioambientais e passam a integrar uma estratégia inteligente de gestão de risco e construção de futuro. Em resumo: o futuro das cidades depende da capacidade de enxergar — e investir — nos territórios que as sustentam.

Juliana Strobel no Smart City 2026, realizado em Curitiba, Brasil, durante o painel “Cidades Resilientes: estamos prontos?”, no qual foi apresentado o caso da iniciativa Marajó Resiliente
Por Juliana Strobel
Diretora de Ação Climática da Fundación Avina




